Festa fora da curva
Se você está acompanhando estas memórias, lembra que ao chegar em Barcelona, a passarinha estava cabisbaixa com a proximidade do Natal – foi quando seu irmão pinguim fez uma auspiciosa ponte com um amigo que estava a morar em Paris.

Já que o vento da vida mudou o rumo para o norte, para lá ela seguiu.
E você pensa: Paris? Que chique!
Mas não se engane, ela é exigente e a fama da cidade não a fascina…

Luxo mesmo foi mergulhar em Paris com o tapaculo-de-brasília!

Scytalopus novacapitalis é um passarinho raro e sorte de quem cruzar seu caminho: muito atento e animado, por vezes se recolhe no seu mundo interno e fica quase invisível. Seu ninho refletia isso: bem no centro do vuco-vuco parisiense, numa passagem sossegada que cruza furtiva entre grandes avenidas. Havia migrado temporariamente do Cerrado e finalizava uma temporada de trabalho a dar aulas e trocar conhecimento. Além de abrigar a passarinha, a levou para planar pela bela Ville Lumière.



E tem melhor presente de Natal pra uma passarinha curiosa do que estar ao lado de um professor generoso e divertido?

A cada rua, o tapaculo-de-brasília deslizava pelos ares decifrando as inúmeras camadas e detalhes desta urbe vaidosa que há mais de 9.000 anos abriga os sapiens. Desde então, a cidade se espalhou pelos pântanos ao redor da Île de la Cité e subiu as colinas.
Dominada por muitos povos, foi cenário de revoluções que afetaram o mundo e no século XIX foi reconstruída para ser cultuada em sua elegância. Por ter sido a primeira cidade europeia a ter sistema de iluminação pública no século XVII, ganhou o apelido de Cidade Luz – aprendeu a brilhar não só com lamparinas mas também com ideias, se tornou o epicentro intelectual da Europa e abrigou grandes pensadores do Iluminismo, como Voltaire e Rousseau.



A passarinha leu histórias escondidas na paisagem de uma cidade consumida em sua fama, planou na brisa noturna das margens do Rio Sena embalada por contos psicodélicos, passeou até cansar em museus incríveis cheios de arte e história… e num encontro jurássico, realizou um sonho de infância aguardado há 65 milhões de anos!

Se encantou com o espetáculo sensorial de romântica harmonia, a própria Vênus entre as grandes capitais do mundo.

Você se permite ao encanto?
O toque invisível do que aprendemos a reconhecer como belo
Melodias ecoando o coral da confluência de povos
Vistas construídas para serem admiradas
Sabores em múltiplas camadas, texturas e culturas
Aromas que despertam o inconsciente

É mais fácil perceber a Beleza quando esta nos seduz os afetos…



Deixando um pouco de lado seu típico senso crítico e as indagações sociopolíticas, ela se permitiu a inocência de ser apenas uma pequena passarinha voando sem destino e cumpriu mais uns itens do seu “Caderninho de Quereres desta Vida” – incluindo a coleção egípcia do Louvre, a sessão de fósseis do Museu de História Natural e, obviamente muitas beliscadas em quitutes finos. Très chic, mon chouchou!






Relaxou.
Mas sabendo que estava relaxando.

Entregue à doçura do momento, suavizou o eterno embate entre a mente que lhe puxa as rédeas e a vontade de se libertar
lembrou da transitoriedade de tudo que existe
reconheceu que aqueles dias eram pra lá de especiais em muitos aspectos, que haviam muitas coisas a serem aprendidas neste soltar-se…

Pois bem, às vezes precisamos viver os desejos da criança que habita em nós para que ela perceba por si só que sua felicidade não depende disso.
Daí é possível escolher os desejos naturais do existir sem que estes nos dominem.

A hora do equilíbrio
pé dentro, pé fora
diz o mestre baiano

O quanto nos reprimimos por não saber lidar com o que se apresenta?
Sem reconhecer que tudo vai passar e que o importante é como sentimos no momento?
Já reparou que as memórias são guardadas no coração?
O encontro com o tapaculo mudou o rumo da viagem não apenas na geografia:
discreto na sua alegre sabedoria, lembrou à passarinha que é possível sim levar a vida em graciosa brincadeira, mas com decidida
respons
abilidade.


Deixou ainda um último recado pro coração:
Meditar é cair em si
E tenha sabedoria para perceber:
cair em si não é tropeçar,
mas sim levantar vôo
